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  • Daniel Takata

A minha história com Kobe Bryant. E o seu feito estatisticamente fantástico: você vai se surpreender

O que falar de Kobe Bryant?


Realisticamente falando, não há muito mais. Principalmente depois do turbilhão de informações sobre o fenomenal basquetebolista americano que inundou a internet nos últimos dias, por conta de seu trágico falecimento em um acidente de helicóptero, no último domingo.



Sigo muitos atletas olímpicos e jornalistas esportivos nas redes sociais, e muitos deles postaram fotos ao lado de Kobe nos últimos dias. Algo que poderia ser surpreendente, dado que se tratava de uma estrela milionária de uma liga milionária em um país que trata os campeões da NBA como "campeões do mundo". Ele tinha tudo para se sentir em um mundo à parte, acima dos demais e não muito acessível a fotografias e autógrafos.


Mas não. Na Olimpíada de 2012, eu, como jornalista credenciado, tive direito a conhecer a Vila Olímpica, a "residência" dos atletas no período olímpico, no dia anterior à abertura. Os organizadores foram claros: respeitem a privacidade dos atletas. Ou seja, sem tietagem.


Mas para muitos era difícil resistir à presença de tantas estrelas. Especialmente do time de basquete dos Estados Unidos, que contava com um dos melhores trios já reunidos em um time: Kobe Bryant, Lebron James e Kevin Durant.


Kobe Bryant, Lebron James e Kevin Durant em 2012: um dos maiores trios da história (foto: divulgação)

Vi Kobe na Vila, e decidi seguir às recomendações e não pedir por uma foto. Mas muitos fizeram o contrário. E vi Kobe atender um a um, pacientemente. Era só sorrisos. Em uma ocasião em que o que se esperava é que ele se fechasse em sua privacidade, ele deixou alguns fãs - que por acaso eram atletas olímpicos e jornalistas - mais felizes.


Essa é minha história com Kobe. A história dele, todos conhecem: bicampeão olímpico, cinco títulos da NBA, quarto maior cestinha da história da liga, único jogador a ter dois números de camisa aposentados por um mesmo time (8 e 24), um dos maiores e mais carismáticos esportistas de todos os tempos, até um Oscar ele levou.


O que pode mais ser dito para enaltecer sua grandeza?


É o que tentarei fazer aqui.


A estatística desconhecida e fantástica de Kobe Bryant


Kobe Bryant era um obcecado pela perfeição. "Nos treinos, ele sempre chegava antes da hora. Era o primeiro, antes de todo mundo. Ele fazia tudo com muita intensidade. E, por causa disso, obrigava os colegas a fazerem o mesmo. Todo mundo se sentia um pouco pressionado a se esforçar tanto quanto ele. Por isso o time chegou aonde chegou. Ele elevou o nível dos Lakers a um patamar inimaginável," recordou o brasileiro Jefferson Sobral, que jogou com Kobe nos Los Angeles Lakers, em reportagem do UOL.


Ou seja, pode-se dizer que Kobe não era somente uma peça fundamental da engrenagem da dinastia do Los Angeles Lakers, cinco vezes campeão entre 2000 e 2010. Ele fazia de seus companheiros jogadores melhores. Sua busca pela excelência era contagiante.


E talvez sua maior obsessão fosse emular seu maior ídolo, Michael Jordan. Nessa incessante busca, as estatísticas que registrou na carreira foram excepcionais. No entanto, não ultrapassaram as do ídolo do Chicago Bulls.


Mas ao menos em um quesito ele foi melhor que Jordan. E você vai se surpreender, pois é algo realmente fantástico.


Na temporada 2005-2006, sua média de pontos por jogo foi de 35,4. Um número excelente, porém melhorado por alguns (poucos) jogadores na história.


(foi nessa temporada, inclusive, que ele anotou inacreditáveis 81 pontos em um jogo, contra o Toronto Raptors, a segunda maior pontuação da história da NBA.)


Kobe Bryant em seu histórico jogo de 81 pontos em 2006 (foto: reprodução/The Players Tribune)

Por exemplo, James Harden obteve média de 36,1 em 2018-2019. O próprio Jordan conseguiu 37,1 em 1986-1987.


Wilt Chamberlain conseguiu a absurda média de 50 pontos por jogo em 1961-1962. No entanto, esse é um número de difícil comparação, pois a NBA era muito diferente e Chamberlain era uma aberração física para aqueles tempos. Uma discrepância que jamais veremos se repetir.


Por isso, vamos nos ater à era "moderna" da NBA, de 1980 para cá. A pontuação de Kobe é a terceira maior da história em uma temporada nesse período.


Só que, mesmo na era moderna, o jogo mudou. Houve épocas de jogos mais ofensivos, entre as quais a que testemunhamos hoje, com equipes com médias de mais de 110 pontos por jogo, e épocas mais defensivas, por exemplo o fim dos anos 1990 e o início dos 2000, em que as equipes marcavam menos de 100 pontos por jogo em média.


Em 2005-2006, os 35,4 pontos de Kobe por jogo representavam, em média, 18,2% do total de pontos médios por jogo, que era de 194.


Já os 37,1 pontos de Jordan por jogo de 1986-1987 representavam, em média, 16,9% do total de pontos médios por jogo, que era de 219,8.


Ou seja, desde 1980, em termos proporcionais, ninguém teve média mais alta de pontos que o Kobe Bryant de 2005-2006.


E mesmo se levarmos em conta todas as temporadas desde o início da NBA, em 1946-1947, ele ficaria em terceiro, somente atrás do já citado Wilt Chamberlain em duas temporadas.


Um feito raríssimo


Para se ter uma ideia, na temporada atual da NBA, a média de pontos por jogo tem sido de 222. Se algum jogador tiver uma média de 18,2% dessa quantidade, como Kobe teve em 2005-2006, ele teria que alcançar incríveis 40,4 pontos por jogo! Qualquer especialista concordaria em dizer que seria uma marca inacreditável.


A pontuação equivalente em 1986-1987 teria sido de 41,8, ou seja, bem acima dos 37,1 que Jordan obteve.


Através de um modelo estatístico de teoria de valores extremos, podemos mensurar o quão raro é o feito de Kobe. E calcular a probabilidade de se obter um feito tão significativo.


A distribuição de valor extremo é um modelo estatístico para todos os tipos de extremos, como dias mais quentes ou mais frios, chuvas mais fortes, recordes de atletismo etc. Baseada nos dados observados nos campeonatos da NBA de 1980 a 2019, a distribuição pode nos dizer o quanto o feito de Kobe em 2005-2006 se afasta dos obtidos pelos líderes das outras temporadas E, dessa maneira, pode-se calcular a probabilidade de se observar um feito como o de Kobe ou ainda melhor.


Resultado: a chance de qualquer outro jogador repetir a pontuação relativa de Kobe é de 0,54%. Ou, em média, um feito como esse é observado a cada 183 anos na NBA "moderna".


Ou seja, em termos de pontuação, a temporada 2005-2006 de Kobe foi incrível. Muito mais incrível do que muitos imaginam.


Kobe Bryant sai de cena. Muito mais cedo do que todos gostariam.


Mas feitos como esse ficarão para a eternidade.


Kobe Bryant (foto: Rick Bowmer/AP Photo)


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© 2019 por Daniel Takata.