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  • Daniel Takata

A negligência com a probabilidade e como ela pode fazer a diferença nos esportes e na vida

Você sabe o que é a negligência com a probabilidade?


É um viés de comportamento que pode conduzir a decisões equivocadas. E isso pode explicar muitos dos nossos pensamentos errôneos. Muitas vezes, um cálculo simples poderia nos fazer tomar as decisões acertadas.


Além de ler o texto, não se esqueça de conferir o vídeo sobre o assunto que postei no canal do Esportístico no YouTube.



Para transmitir o conceito, o farei através de exemplos.


O primeiro é no futebol.


Certa vez, um espanhol torcedor do Real Madrid que conheci estava revoltado. Na partida Espanha x Portugal na Copa do Mundo de 2018, o português Cristiano Ronaldo, então jogador do Real Madrid, empatou o jogo no final do jogo em uma cobrança de falta.


O sujeito, indignado, me dizia: "Os jogadores da Espanha não poderia, em hipótese alguma, conceder uma falta para Cristiano Ronaldo cobrar no final do jogo! Eu o acompanho no Real Madrid e sei que ele faz gols na maioria das faltas que ele cobra. Para ele, uma cobrança dessa é quase certeza de gol!"


Será mesmo?


Entre 2013 e 2016, o jornal espanhol Marca fez um levantamento. Nesse período, Cristiano Ronaldo anotou seis gols em cobranças de falta.


Agora, a surpresa: foram seis gols em 150 tentativas! Em 40 delas, o goleiro defendeu, em outras 40 ele chutou para fora, em 62 ele parou na barreira e em duas a bola foi na trave.


Ou seja, um aproveitamento de 4%.


Cristiano Ronaldo (foto: Getty Images)

Não irei entrar no mérito se o aproveitamento é acima ou abaixo do de outros jogadores. Pode até ser que seja acima da média.


Mas está bem longe de se poder dizer que, quando ele cobra uma falta, é quase certeza de gol.


E muita gente tem essa impressão de fato. Muito porque quando o jogador faz o gol de falta, é esse lance que aparece nos programas de TV, que é repetido à exaustão no noticiário. Quando ele erra, pouca gente presta atenção. Logo, a probabilidade do evento é superestimada.


Não temos uma compreensão intuitiva de probabilidade


Um outro exemplo, não exatamente no contexto esportivo, também é interessante para se entender o conceito da negligência com a probabilidade, e pode ser encontrado no livro A Arte de Pensar Claramente, de Rolf Dobelli.


"Dois jogos de azar: no primeiro, você pode ganhar 10 milhões de dólares; no segundo, 10 mil. Em qual você vai jogar? Se ganhar no primeiro, sua vida vai mudar: poderá pendurar as chuteiras e, a partir de então, viver só dos rendimentos. Se levar a bolada no segundo jogo, poderá passar umas belas férias no Caribe, nada mais. A probabilidade de ganhar no primeiro jogo é de uma a cada 100 milhões; no segundo, uma a cada 10 mil. Então, qual você escolhe? Nossas emoções nos atraem para o primeiro jogo, embora o segundo, visto objetivamente, seja dez vezes melhor. Eis por que a moda de prêmios cada vez maiores - milhões, bilhões, trilhões -, não importa quão ínfimas forem as chances de ganhar."


Esses erros de julgamento ocorrem porque o cérebro humano não se adaptou a pensar probabilisticamente. A probabilidade é um conceito com o qual a humanidade lida há 200, 300 anos somente. Não fez parte do nosso processo de evolução, e por isso não é intuitivo para nós.


Por isso, tendemos a analisar somente a extensão esperada do evento (total do prêmio; gol do Cristiano Ronaldo), mas não a sua probabilidade.


Há experimentos que demonstram esse fato de maneira notável. Novamente, indico o livro A Arte de Pensar Claramente para maiores detalhes.


Então, quando algum analista mencionar que, em um jogo de vôlei, certo jogador "é intransponível no bloqueio", ou, em um jogo de basquete, determinado jogador "dificilmente erra uma bola de três pontos", desconfie. As afirmações podem estar contaminadas pelo fenômeno da negligência com a probabilidade.


E, obviamente, saber lidar com as probabilidades é essencial para o sucesso no esporte, afinal em geral tratam-se de jogos de tomadas de decisões e de maximar as probabilidades de sucesso.


Por isso, jogadores, treinadores e todos os envolvidos na análise esportiva, fiquem muito atentos à negligência com a probabilidade. Não confiem somente na intuição, pois ela pode estar enviesada.


Não é culpa sua, e sim da nossa evolução. E isso pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.


Não se esqueça de conferir o vídeo sobre o assunto que postei no canal do Esportístico no YouTube para explicações adicionais.





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© 2019 por Daniel Takata.