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  • Daniel Takata

Como a estatística ajudou a fazer três campeões no futebol: Palmeiras, Athletico e Grêmio

Atualizado: 10 de Ago de 2019


Palmeiras foi campeão brasileiro em 2018 utilizando estratégias baseadas em ciência de dados (foto: Twitter Palmeiras)

O texto a seguir foi publicado este ano, em janeiro, pelo UOL, de autoria de de Napoleão de Almeida.


Descreve como três grandes clubes do Brasil, campeões recentemente (Palmeiras, Grêmio e Athletico-PR) fizeram ótimo uso da ciência de dados em suas conquistas.


E mostra, também, que a utilização da estatística no futebol brasileiro ainda está defasada.


Como a estatística ajudou a fazer três campeões no futebol: Palmeiras, Athletico e Grêmio


Billy Beane ficou conhecido mundialmente como "o homem que mudou o jogo" em Moneyball, filme de 2011 que conta a história sobre como o Oakland Athletics, time de beisebol dos EUA, consegue competir com as grandes forças financeiras da Major League Baseball usando-se de um sistema de estatísticas de desempenho e monitoramento de atletas. O sistema e o filme inspiraram uma empresa de consultoria financeira do Equador a desenvolver um programa para o futebol. E três campeões recentes no Brasil utilizaram os índices da Kin Analytics nas conquistas do Brasileirão-2018 (Palmeiras), Copa Sul-Americana-2018 (Athletico-PR) e Copa do Brasil-2016 (Grêmio).


"Sabe o gordinho do filme? Sou eu", contou aos risos o diretor de esportes da empresa, Paulo Castro. Com sede em Quito, a Kin Analytics já havia trabalhado com o Independiente Del Valle na campanha do vice-campeonato do time na Libertadores em 2016 e chegou ao Brasil no Grêmio comandado por Roger Machado e posteriormente por Renato Gaúcho.


Twitter da Kin Analytics destaca parceria com o Grêmio, que abriu portas no Brasil (foto: reprodução)

"A gente tinha uns contatos de umas empresas de Porto Alegre, e o Diego Gerhardt, amigo meu sócio do Grêmio, conhecia o vice-presidente Antônio Dutra, que entrou em contato com o Romildo Bolzan,que estava envolvido com inovações, como a SAP no Grêmio. Eles tinham comprado dados muito crus e nós nos apresentamos como parceiros para explicar essas informações. E ele gostou muito e nos deu a chance de fazer um trabalho-piloto no clube", relembra Andrés Perez, CEO da Kin Analitycs, que também trabalha no mercado financeiro com empresas como o Rabobank, banco holandês.


Trabalho no futebol consiste em averiguar informações, como no mercado financeiro


"A gente faz duas semanas de treinamentos com a comissão técnica e com os analistas de desempenho. Fazemos estatísticas diferentes das normais. No jogo tem os disparos ao gol, a posse de bola, mas isso não diz muito da qualidade de jogo", relata Castro, sobre o método.


O futebol que se discute nas mesas-redondas tem cada vez mais estado longe do que se pratica nos campos, ao menos em termos estatísticos. Se a discussão é sobre "posse de bola" e como "Guardiola tem um time dominante", os clubes trabalham com uma gama enorme de índices específicos, explica Castro.


"A gente vai além e pega o ritmo de passes dos jogadores. A gente fez isso muito com o Grêmio, eles eram uma máquina de passes. Passes bons para a frente, não ficar com a bola por muito tempo, jogar com a mesma qualidade na esquerda e na direita. E a gente entrega relatórios, por exemplo: vocês querem um acerto de 78% em passes para frente e nesse jogo foram 60%. Tem que melhorar."


Não apenas isso: Grêmio, Athletico-PR e Palmeiras recebem seus próprios índices, mas o monitoramento é global. A empresa faz a análise dos rivais, com os mesmos KPIs (Key Performance Indicators, ou Chaves de Desempenho Pessoais, em tradução livre). Isso permite que a comissão técnica possa identificar correções no time. "Se o time joga mais para um lado, se cruza muito a bola", exemplifica. A Kin Analitycs fechou contrato para monitorar todas as partidas da Florida Cup, com São Paulo, Eintracht Frankfurt, Ajax e Flamengo-o time carioca, aliás, recebeu proposta de trabalho da empresa.


Processo complexo resulta aprimoramento, mas encontra resistências


"Os times que trabalharam conosco atingiram os títulos. A gente gosta de falar que faz parte disso, mas é um trabalho muito maior, os times que tem Kin Analitycs conseguem mais títulos, mas não apenas por isso, a gente não vê assim. É um conjunto de trabalho", disse Paulo Castro, ao pegar os méritos da empresa que, não por coincidência, trabalha com os clubes citados.


Parte de relatório enviado aos clubes aponta com precisão locais e resultados dos cruzamentos (foto: reprodução)

Esse sistema inclui variáveis como os métodos de treinamento, a gestão de grupo, o trabalho do fisiologista, dos médicos, nutricionistas, as reações dos próprios jogadores. O que a empresa oferece, nas palavras dele, "é um caminho para que os clubes cheguem ao modelo de jogo idealizado e possam entender e escolher melhor os treinos e as peças para isso".


Por exemplo, se um clube quer jogar no contra-ataque, precisa de jogadores que respondam a esse estilo de jogo; se é posse de bola e trocas de passe, idem. "A gente também faz um relatório de scout que procura jogadores mais alinhados com a filosofia do clube. A gente procura no mercado jogadores que tenham essas características."

Uma das dificuldades é exatamente a mudança constante de decisões e comandos no futebol brasileiro. Roger Machado utilizou muito das estatísticas no Grêmio campeão da Copa do Brasil de 2016, porém acabou demitido e vendo Renato Gaúcho levantando a taça. Levou as ideias ao Palmeiras. Enquanto isso, o Grêmio seguiu com convênio com a empresa, mas a linha de trabalho de Renato era outra.


No Palmeiras, encontrou apoio do departamento de desempenho. "Consideramos um software moderno, útil e com o diferencial de produzir métricas não tão comuns em outras ferramentas, como por exemplo o tempo gasto por um determinado jogador para realizar um passe", comentou Cícero Souza, que trabalha com a ferramenta. O clube negocia a renovação do contrato.


Mas, o que explica o fato de Roger Machado ter levado o sistema ao Palmeiras e o time só ter conseguido resultados com Felipão? "O Palmeiras era muito reativo. Quando estava empatando, tinha dificuldades em criar. Mas perdendo ou ganhando, criava muito mais. E é um trabalho psicológico a fazer com os jogadores", comentou Castro."Os técnicos têm diferentes formas de ver o jogo. A gente não diz o que não fazer, mas jogamos os dados para eles da forma que precisam nesse momento. Eles são os profissionais, tem a sua filosofia. A gente não tenta mexer com as ideias deles mesmos. A gente dá os dados que eles precisam para analisar da melhor maneira".


Índice de gols esperados (expected goals) dividido por métricas de 15 minutos (foto: reprodução)

No Athletico, a correção foi outra. O time não jogava em direção ao gol e os jogadores, embora retivessem a posse de bola, eram lentos nas trocas de passes. Tiago Nunes assumiu, recebeu os índices e realizou treinos de campo reduzido para corrigir o problema, sem que se perdesse a identidade projetada pelo clube para a equipe.

Essa, aliás, é outra prorrogativa do trabalho da Kin Analitycs: uniformizar o estilo de jogo das equipes dos clubes. "Trabalhamos com o Athletico-PR uma só linha de jogo, desde que os jogadores são pequenos. E eles vão comparar se o primeiro time joga igual ao sub-20."


No Athletico, o trabalho de idealização uniforme de jogo começou com Paulo Autuori e seguiu até hoje. "Os times bons estão virando uma empresa, trabalhando com processos e metodologias. Mesmo que mude, ficam com a mesma estrutura de jogo. Tem muitas metodologias implantadas."


Analistas de futebol estão vendo outro jogo


Para Castro, o jogo que é discutido não é o mesmo que é jogado. "Você tem escutado que os times com maior posse nem sempre são os que mais ganham. É uma análise mal feita dos analistas. Quem está ganhando pode ter a bola muito mais tempo, quem está perdendo quer recuperar o mais rápido. Não é possível analisar essa maneira. O importante é ver quem gera mais gols com a posse de bola quando o jogo está empatado. E aí, é muito fácil ver que quem tem mais posse acaba fazendo os gols quando empatando", argumentou, citando um dos índices mais debatidos no meio atualmente.


"O sistema do jogo de futebol é incrivelmente complexo. Podemos ver quando um está ganhando e o outro perdendo, no início ou no fim, nos 15 minutos finais, no terço final do campo ou quando está defendendo", comentou o analista da empresa, dizendo que nada disso, afinal, garante resultados: "Seria muito mecânico, é impossível. A gente é praticamente um controle de qualidade dos clubes. Se idealiza um time que tenha posse de bola alta, muito domínio e muita criação, então a gente colhe os dados e diz: 'para isso, você tem que melhorar isso'. Mas nem sempre o melhor ganha. Você assistiu 'Moneyball', e eles não ganharam."


Na opinião de Castro, o futebol está chegando atrasado ao mundo das "KPIs". "A análise já é aplicada na NBA. Todos os jogadores conhecem suas estatísticas. O futebol ficou um pouquinho atrasado nisso, em pegar estatística de maneira profissional. Mas estamos tentando fazer isso acontecer. É muito importante ter uma identidade de jogo. A gente aponta para isso. Os títulos vêm com o trabalho dos times. A gente fala como eles vão atingir os objetivos de jogo."


Clube próprio


Além das parcerias, a Kin Analitycs resolveu comprar um clube e implementar suas convicções de cabo a rabo. O Atlético Kin atualmente joga a Segunda Categoria do Equador, espécie de terceira divisão regionalizada. O time conseguiu um acesso em 2017, mas nesta temporada acabou em quarto na sua chave e manteve-se na divisão. Para a Série A, faltariam dois acessos.


"Aplicamos todos esses conceitos no clube também. Procuramos jogadores que se enquadram, aplicamos essa filosofia porque confiamos nela. Essa é a forma de dirigir um clube. A gente ganhou um campeonato já e espero que nos próximos anos esteja na primeira divisão do Equador. Temos objetivos ambiciosos", disse Castro.

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© 2019 por Daniel Takata.