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  • Daniel Takata

Como a estatística ajudou o Brasil virar uma potência no vôlei


Seleção brasileira masculina de vôlei (foto: Ivan Pacheco/VEJA.com)

"Se não estiver na quadra, munida de laptop, anotando tudo quanto é dado sobre jogadas, pontos e erros da seleção brasileira de vôlei masculino, a estatística Sandra Caldeira pode estar espionando algum adversário com uma câmera de vídeo. O resultado de seu trabalho são preciosos gráficos que influem no treinamento da equipe. Durante o jogo, ela passa todo o tempo abastecendo o técnico de informações que não raro definem substituições de jogadores e até mesmo ajustes na tática adotada para aquela partida."


O trecho acima diz muito sobre o uso da estatística e da ciência de dados pela seleção brasileira de vôlei. Não é segredo para ninguém que tal trabalho mostrou-se um diferencial ao longo do tempo e é um dos responsáveis pelo Brasil ter virado uma potência do esporte.


No entanto, pode espantar a data da publicação do trecho acima. É de uma edição da revista Superinteressante, de julho de 1996!


Sim, há mais de 20 anos o vôlei já fazia uso da estatística para avaliação de desempenho. Mais precisamente, desde 1986.


Na época, José Carlos Brunoro, então assistente técnico da equipe masculina, percebeu que, para ganhar de times organizados como Estados Unidos, Itália e União Soviética, era preciso reorganizar o modo como o Brasil administrava seus times. E como fazer isso? Através de dados. Muitos dados, sobre jogadores brasileiros e estrangeiros.


Sandra Caldeira, ex-jogadora, colocou em prática sua experiência e seus conhecimentos de estatística para montar um sistema de avaliação de jogadores brasileiros e estrangeiros. E isso representou uma revolução no vôlei.


Sandra Caldeira, responsável por trazer as análises estatísticas para o vôlei (foto: divulgação)

Lembre-se, computadores não eram acessórios acessíveis naqueles tempos. O trabalho era todo feito na calculadora e as planilhas eram preenchidas a lápis.


Não demorou para dar resultado. Em 1992, a seleção brasileira masculina sagrou-se campeã olímpica. E, a partir daí, as glórias não findaram: foram mais duas medalhas de ouro para os homens, outras duas para as mulheres, mais três títulos mundiais no masculino, entre inúmeras outras conquistas.


Hoje, ninguém, em sã consciência, se atreve a minimizar o papel da análise estatística nas seleções brasileiras de vôlei.


Hoje, todo time profissional que se preze possui uma equipe que utiliza computadores e softwares especializados para estudar as características dos jogadores.


O técnico Bernardinho: grande adepto e usuário das análises estatísticas no vôlei (foto: divulgação)

Um exemplo de como a análise estatística é utilizado pode ser exemplificado no desempenho de dois jogadores brasileiros no Mundial de 2010.


Durante o campeonato, Murilo Endres tomou a iniciativa 186 vezes, das quais em 89 ele marcou pontos. O percentual resultante, 47,85%, é chamado pelos profissionais do vôlei de eficácia - quanto mais o jogador acerta, mais eficaz ele é considerado. Em compensação, por causa de seus erros, os adversários marcaram 22 pontos. O percentual resultante de 36% (89-22 dividido por 186) é chamado de eficiência - quanto menos o jogador erra, mais eficiente ele é.


Por outro lado, Leandro Visotto, teve eficácia de 50,24% e eficiência de 32,34%. Gerou mais pontos, mas também permitiu mais pontos para os adversários. Leandro foi mais eficaz que Murilo, mas menos eficiente.


No final das contas, essa diferença foi fundamental para que Murilo fosse escolhido o melhor jogador da competição, mostrando que nem só de pontos marcados vive o jogador.


E esses números podem fazer com que o treinador escolha os momentos de um ou outro jogador na quadra, dependendo da situação do jogo, balanceando os percentuais de erros e os acertos de cada um.


Muitas outras análises são feitas, claro. O que mostra que, hoje, sem a estatística, o vôlei do Brasil estaria muitos passos atrás.


Mas, graças a ela, está na dianteira do mundo.


Algumas informações deste texto foram retiradas da revista Cálculo: Matemática Para Todos, edição 4, 2011.

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