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  • Daniel Takata

Esportivamente e estatisticamente, qual é o impacto de uma Olimpíada em 2021?

Como todos sabemos, os Jogos Olímpicos de Tóquio, que teriam início em julho de 2020, foram adiados, e devem ser realizados até julho/agosto de 2021, devido à pandemia de CONVID-19 causada pelo novo coronavírus.


Muito se falou sobre os impactos nos treinamentos dos atletas e nos prejuízos financeiros que tal decisão podem ocasionar. Afinal, é a primeira vez na história que uma Olimpíada é adiada para uma data posterior - anteriormente, já houve cancelamentos por causa da 1ª e da 2ª guerras mundiais.



Mas pode-se também avaliar o impacto esportivo. Afinal de contas, realizar um evento desse porte em 2021 é bem diferente de realizá-lo em 2020. Inevitavelmente, alguns daqueles atletas que venceriam suas provas em 2020 serão diferentes dos vencedores de 2021.


Mas como mensurar o impacto da mudança de data nesses termos?


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Para essa avaliação, fiz um levantamento simples. Considerei os dois esportes ditos "nobres" dos Jogos Olímpicos, o atletismo e a natação.


Para fazer a projeção de quem seriam os vencedores caso os Jogo Olímpicos fossem realizados no ano seguinte ao originalmente planejado, considerei os Campeonatos Mundiais das modalidades, realizados nos anos posteriores às disputas olímpicas.


Desde os Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, efetuei a comparação entre os vencedores olímpicos e os vencedores dos Mundiais das duas modalidades ocorridos um ano depois, considerando somente as provas individuais (sem revezamentos). Obviamente, com a ideia de que os vencedores dos Mundiais seriam os mesmos caso os Jogos Olímpicos fossem realizados no ano seguinte ao originalmente planejado (mais à frente no texto, argumento que essa suposição não é totalmente verdadeira). E fiz a correspondência: em quantas provas os vencedores coincidiram?


Na natação, nas cinco disputas olímpicas do período, houve 26 provas individuais em cada uma delas (13 femininas e 13 masculinas), totalizando 130. E, dessas, em 48 observou-se o mesmo vencedor no Campeonato Mundial do ano seguinte, o que corresponde a 36,9%.


(o menor percentual de vencedores repetidos ocorreu no biênio 2008-2009, com 30,8%, e o maior, em 2012-2013 e 2015-2016, com 42,3%).


No atletismo, houve 213 disputas individuais olímpicas entre 2000 e 2016, e em 64 delas os vencedores foram os mesmos, o que corresponde a 30%.


(o menor percentual ocorreu em 2004-2005, com 23,8%, e o maior, em 2012-2013, com 39,5%).


Isso indica que, um ano depois da Olimpíada, apenas em torno de 30%-40% dos medalhistas de ouro conseguem manter seu domínio. O que sugere que apenas de 30 a 40% daqueles que conquistarão medalhas de ouro em Tóquio em 2021 teriam obtido a mesma glória caso os Jogos fossem realizados em 2020.


Claro que é preciso relativizar. Alguns atletas conquistam o ouro olímpico e não repetem a conquista no Mundial do ano seguinte simplesmente porque se aposentam. É o caso, por exemplo, do lendário corredor Michael Johnson após Sydney-2000, e da nadadora Maya Dirado, vencedora dos 200m costas na Rio-2016.


Afinal, o ouro olímpico é o objetivo final da maioria dos atletas. Se nesses casos a Olimpíada fosse adiada e realizada no ano seguinte, certamente eles teriam adiado suas aposentadorias e continuado competindo por mais um ano.


Usain Bolt na Rio-2016 (foto: Ezra Shaw/Getty Images)

Ou podemos até citar o caso de Usain Bolt, dois ouros olímpicos em 2016 nos 100m e 200m rasos, e apenas um bronze no Mundial de 2017, nos 100m. Então se a Olimpíada do Rio tivesse sido adiada para 2017, ele teria conseguido somente um terceiro lugar? Difícil dizer. O Mundial de 2017 foi a última competição de sua carreira e talvez ele já não estivesse com tanta motivação para se dedicar aos treinamentos após uma carreira longa e vitoriosa. Mas se os Jogos Olímpicos tivessem ocorrido em 2017, talvez ele tivesse continuado a se dedicar com afinco e tivesse resultados diferentes de somente uma medalha de bronze.


Por outro lado, não se pode negar que alguns atletas apresentam evolução notável de um ano para outro. É o caso do fenomenal nadador americano Caeleb Dressel. Ele esteve na Olimpíada de 2016 e não obteve medalhas individuais. Mas no Mundial de 2017 conquistou três medalhas de ouro em provas individuais, todas com tempos melhores que os vencedores de 2016. Por isso, pouca gente duvida de que, se o cenário fosse similar ao de agora (se a Olimpíada do Rio de Janeiro fosse realizada um ano após a data original), ele teria conseguido essas três vitórias ao invés de nenhuma medalha, em um caso típico de mudança de vencedor ocasionada pela alteração da data do evento.


Caeleb Dressel em 2017, ano em que despontou internacionalmente (foto: Ezra Shaw/Getty Images)

Logo, é válido imaginar que vários resultados que ocorreriam se a Olimpíada ocorresse em 2020 seriam diferentes daqueles que efetivamente ocorrerão em 2021. Mas talvez o percentual de somente 30-40% de vencedores que seriam os mesmos esteja um pouco subestimado, pelos argumentos apresentados.


Por isso, vamos inflar esse número, e digamos que essa taxa esteja na verdade entre 50-60%. Ainda assim representa uma grande diferença. Isso quer dizer cerca de metade dos atletas que venceriam em 2020 serão diferentes daqueles que vencerão em 2021, ao menos no atletismo e natação. E é realmente natural pensar que alguns atletas estão no auge em 2020, e outros diferentes alcançarão o apogeu um ano depois.


Faz parte do jogo. Os atletas têm a consciência de que não há como uma Olimpíada ser realizada em 2020.


E que a saúde mundial é mais importante que a glória individual.

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© 2019 por Daniel Takata.