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  • Daniel Takata

O Brasil vai enfim correr os 100m abaixo de 10 segundos? A chance aumentou


Robson Caetano acena na Vila Olímpica durante a realização dos Jogos de Seul-1988 (foto: Wilson Melo/Folhapress)

Lá se vão 31 anos. Na disputa do Ibero-Americano de 1988, na Cidade do México, o brasileiro Robson Caetano completou os 100m rasos em 10 segundos cravados.


À época, era uma marca muito expressiva. Até aquela data, apenas seis corredores, na história, haviam corrido a distância abaixo dos 10 segundos. E um deles, o canadense Ben Johnson, teria suas marcas anuladas posteriormente por doping.


Robson encerraria a carreira com duas medalhas de bronze olímpicas, nos 200m rasos em 1988 e no revezamento 4x100m em 1996. E sem jamais conseguir correr os 100m abaixo daquela marca obtida no México.


Nem ele, nem nenhum outro brasileiro. A barreira dos 10 segundos é, até hoje, intransponível para corredores do país.


Se na época de Robson era raro aparecer um atleta que corresse abaixo da marca, até o final do ano passado eram 137 corredores na história a terem alcançado o feito. Só em 2018 foram 19.


Por isso, fica a pergunta: o quão perto estamos de ver um brasileiro correr os 100m abaixo de 10 segundos? A resposta é: aparentemente, mais perto do que nunca. Acompanhe o raciocínio a seguir, seguindo estatísticas.


Além disso, não se esqueça de conferir o canal do Esportístico no YouTube, em que publiquei um vídeo sobre o tema.





Um anúncio


No ano passado, a comunidade do atletismo brasileiro ficou em rebuliço. Primeiro, porque Paulo André Camilo correu os 100m em 10s02 no Troféu Brasil, em Bragança Paulista. Foi o segundo melhor tempo da história registrado por um brasileiro (igualando uma marca obtida por Robson Caetano em 1986), criando uma expectativa justificada para uma marca sub-10s.


Paulo André Camilo (foto: Zheng Huanson/Xinhua)

Além disso, outros dois corredores fizeram marcas próximas em 2018: Jorge Henrique Vides registrou 10s08, enquanto Derick Souza marcou 10s10.


Foram 8 corredores brasileiros com marcas iguais ou abaixo de 10s30 somente no ano passado.


Não só temos um brasileiro bem perto dos 9s99, mas um volume de corredores que podem fazer a chance de a quebra da barreira aumentar.


A tabela abaixo indica o número de corredores brasileiros com tempos iguais ou abaixo de 10s30, por ano, bem como o tempo do mais rápido, de 2009 a 2018:



Note que em 2009 também 8 brasileiros correram em 10s30 ou menos, número igual ao de 2018. No entanto, em 2009, nenhum corredor completou a distância em 10s10 ou menos. Na verdade, isso não acontecia desde 1999, quando André Domingos fez 10s06. E, em 2018, foram nada menos que três, os citados Paulo André, Jorge Henrique e Derick.


Esses dois aspectos, número de brasileiros correndo próximo dos 10 segundos e a marca do melhor brasileiro, em dada temporada, certamente impacta nas chances de haver um atleta correndo abaixo de 10 segundos na temporada seguinte.


Fazendo as contas


Por exemplo, houve 17 americanos correndo em 10s10 ou menos em 2017, sendo que o melhor tempo foi de 9s82. Era de se esperar que ao menos um americano registrasse tempo abaixo de 10 segundos em 2018, o que de fato ocorreu.


Jorge Henrique Vides é um dos velocistas brasileiros próximos dos 10s00 (foto: Dominic Ebenbichler/Reuters)

Há exceções. Por exemplo, em 2017, o Japão teve um número razoável, seis, de corredores em 10s10 ou menos. Seu atleta mais rápido marcou 9s98. E, em 2018, nenhum japonês correu abaixo de 10 segundos.


E, por outro lado, em 2013, o melhor corredor da África do Sul tinha exatamente 10s10, e no ano seguinte o país teve um atleta abaixo dos 10 segundos - em um panorama bem desfavorável quando comparado à atual situação do Brasil.


São exceções. Em geral, quanto mais atletas de um mesmo país correm em 10s10 ou menos em uma temporada, e quanto melhor é o tempo do corredor mais rápido, aumentam as chances de o país ter ao menos um atleta abaixo de 10 segundos na temporada seguinte.


Um modelo estatístico, denominado regressão logística, pode ser utilizado para calcular a probabilidade de um país ter um atleta abaixo de 10 segundos em uma temporada, utilizando as informações da temporada anterior.


Nesse modelo, são dados pesos às informações, no caso número de atletas em 10s10 ou menos e o tempo do melhor corredor, de modo com que a probabilidade desejada possa ser calculada.


Esse é um dos modelos denominados de machine learning, ou aprendizagem de máquina, em que alimentamos o computador com dados e as informações desejadas são retornadas.


No caso, foram considerados dados dos rankings mundiais de atletismo de dez temporadas, até 2018.


Por exemplo, os Estados Unidos tiveram 16 atletas em 10s10 ou menos em 2018, e o tempo do melhor corredor foi 9s79. Pelo modelo, a probabilidade de haver um americano correndo abaixo de 10s em 2019 seria de 99,97% - de fato, 5 americanos já correram abaixo da barreira neste ano.


Por outro lado, o Equador teve somente um atleta em 10s10 ou menos em 2018, e o tempo desse atleta foi 10s09. A probabilidade calculada é de 10,53%.


Em 2017, o Brasil não teve ninguém para 10s10 ou menos, e o tempo do melhor atleta, Paulo André Camilo, foi 10s18. Com isso, a probabilidade de um brasileiro correr abaixo de 10 segundos em 2018 era somente de 2,26%.


Acompanhe os valores das probabilidades calculadas nos últimos anos: 2,93% (2014), 0,69% (2015), 1,34% (2016), 5,54% (2017) e 2,26% (2018).


Mas, em 2018, com três atletas e o melhor deles para 10s02, a probabilidade de um brasileiro correr abaixo de 10 segundos em 2019 salta para 41,40%.


O gráfico a seguir mostra os valores das probabilidades e ilustra a diferença em relação aos anos anteriores.


Ou seja, nunca essa probabilidade esteve tão alta. Neste ano, Paulo André Camilo correu mais uma vez para 10s02, em abril, no Bryan Clay Meeting, nos Estados Unidos.


O fato de a probabilidade ser bem mais alta do que nunca não nos permite afirmar categoricamente que haverá um brasileiro correndo os 100m abaixo de 10 segundos em 2019. Na verdade, a probabilidade de isso não acontecer, que é de 58,60%, é até um pouco maior do que a de acontecer.


Mas os desempenhos dos atletas nunca deixaram a expectativa, refletida pela probabilidade calculada, tão alta.


Se, nos anos anteriores, era praticamente certo que um brasileiro não correria os 100m abaixo de 10 segundos, em 2019 o panorama é totalmente diferente. E, ao contrário das outras temporadas, não será surpresa se o feito finalmente ser atingido neste ano.


Veja também o vídeo que publiquei sobre o assunto no canal do Esportístico no YouTube:








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© 2019 por Daniel Takata.