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© 2019 por Daniel Takata.

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  • Daniel Takata

Quais seriam os recordes mundiais na natação sem a influência dos trajes tecnológicos?

No dia 1º de janeiro de 2020, completar-se-ão dez anos da exata data em que os trajes tecnológicos foram banidos da natação.


Tais trajes, também chamados de super trajes ou trajes hi-tech, se popularizaram em 2008 e 2009 e contribuíram para a quebra de uma infinidade de recordes na época. Entre esses recordes, estão marcas de lendas do esporte como Cesar Cielo, Michael Phelps e Federica Pellegrini, vigentes até hoje.


Muito se discutiu na época, e se discute até hoje, o real efeito dos trajes nos desempenhos dos nadadores. E, neste post, trazemos uma análise estatística que nos ajudará a ter noção do quanto os recordes daquela época foram melhorados por causa dos trajes.


Contextualização


Trajes que cobriam pernas e até braços começaram a se popularizar no final dos anos 90. Sua principal contribuição era na compressão dos músculos, o que retardava a fadiga. Mas os trajes basicamente eram feitos dos mesmos tecidos das sungas e maiôs da época, ou seja, eram trajes têxteis.


Em 2008, a Speedo lançou seu traje LZR Racer, composto de placas de poliuretano, uma espécie de composto emborrachado que diminuía o atrito do nadador com a água e auxiliava na flutuabilidade. Foi uma revolução. Naquele ano, houve 55 recordes mundiais em piscina de 50 metros, sendo 25 somente na Olimpíada de Pequim.


Michael Phelps na apresentação do Speedo LZR Racer em 2008 (foto: divulgação/Speedo)

Em 2009, outras fabricantes como Jaked e Arena aprimoraram os trajes, dessa vez revestindo-os completamente de poliuretano. Resultado: 67 recordes mundiais em piscina longa naquele ano, sendo 43 no Mundial de Roma. Jamais havia se visto algo semelhante.


No início de 2010, os trajes foram proibidos. Mas seu efeito continua até hoje. Ainda há recordes daquela época vigentes, sendo que alguns sequer foram ameaçados.


Dois desses são do brasileiro Cesar Cielo. A lista dos recordes mundiais individuais em piscina de 50 metros obtidas com trajes tecnológicos e que ainda estão em vigor é a seguinte:


Masculino:

Cesar Cielo (BRA), 50m livre, 20s91

Cesar Cielo (BRA), 100m livre, 46s91

Paul Biedermann (ALE), 200m livre, 1min42s00

Paul Biedermann (ALE), 400m livre, 3min40s08

Zhang Lin (CHN), 800m livre, 7min32s12

Aaron Peirsol (EUA), 200m costas, 1min51s92

Michael Phelps (EUA), 400m medley, 4min03s84


Feminino:

Federica Pellegrini (ITA), 200m livre, 1min52s98

Liu Zige (CHN), 200m borboleta, 2min01s81


Ficam as pergunta: essas marcas representariam recordes mundiais na época não fossem os super trajes? Quais seriam as marcas correspondentes tivessem os nadadores competido sem os tais trajes?


Responder a essas questões é o objetivo deste post.


Modelo estatístico para o cálculo dos tempos sem os trajes


Tomemos como exemplo a evolução dos 100m livre masculino ao longo dos anos. O gráfico a seguir representa a média dos tempos dos 100 primeiros colocados no ranking mundial ano a ano.

Obviamente observa-se uma tendência decrescente, como é natural de se esperar dada a evolução do esporte. Mas, além disso, observa-se outro fenômeno interessante:

A cada quatro anos, observa-se uma queda acentuada nos tempos. Isso não é coincidência: são os anos em que há disputa dos Jogos Olímpicos. A única exceção se deu no biênio 2008-2009, em que os super trajes estiveram em vigor, pois esperava-se uma queda nos tempos em 2008 e um aumento em 2009, o que não ocorreu.

Considerando essas duas componentes (tendência decrescente e comportamento sazonal a cada quatro anos), pode-se ajustar um modelo estatístico para dados de séries temporais (que evoluem ao longo do tempo) para se detectar quais teriam sido os tempos em 2008 e 2009 caso os tempos tivessem seguido o comportamento dos outros anos, ou seja, sem trajes.


O modelo considerado é chamado ARIMA (do inglês Autoregressive Integrated Moving Average), um dos mais clássicos para séries temporais. Para uma breve explicação, confira o verbete da Wikipedia.


Para o ajuste do modelo, algumas considerações:


- O comportamento observado para os dados dos 100m livre masculino é similar ao das outras provas olímpicas. A sazonalidade não é observada em provas não olímpicas, já que muitos atletas não as priorizam em anos olímpicos. Por isso, a análise feita aqui considera somente as provas que até 2016 constavam no programa olímpico (ou seja, estão excluídas os 50m borboleta, costas e peito, 800m livre masculino e 1500m livre feminino).


- Como já comentado, em 2009 apareceram trajes que ofereciam mais vantagem em relação aos trajes de 2008. Por isso, foram considerados efeitos diferentes para os dois anos.


- Nas provas masculinas, havia nadadores que preferiam usar somente a parte da calça do traje, outros preferiam usar o traje completo, e isso variava de prova para prova. Um levantamento cuidadoso foi feito para estimar o percentual de nadadores que utilizava cada tipo de traje em cada prova, para que fosse possível calcular os efeitos da maneira mais fidedigna possível.


- É importante lembrar que tratam-se de efeitos médios. Os trajes podem ter contribuído mais para a melhoria de alguns nadadores do que outros, e isso é impossível de se medir - um experimento com cada nadador seria necessário para avaliar o efeito individual.


Resultados


A seguir, as análises para cada uma das provas individuais em piscina de 50 metros em que o recorde da era dos trajes ainda está vigente (com exceção dos 800m livre masculino):


50m livre masculino

Em 2008, o australiano Eamon Sulivan quebrou o recorde mundial com 21s28, tempo que corresponderia, sem traje, a 21s49. Ainda assim, a marca seria recorde mundial. Cesar Cielo, com 20s91 em 2009 (recorde vigente até hoje), teria um tempo equivalente sem traje a 21s46, que também seria recorde mundial. Esse recorde teria sido superado em 2010 pelo francês Fred Bousquet e em 2012 por Florent Manaudou, mas Cesar recuperaria o recorde em 2013 com 21s32 e se manteria recordista até 2015. Sem trajes, hoje o recorde seria do americano Caeleb Dressel, com 21s04 do Mundial de 2019.


100m livre masculino

Em 2008, Eamon Sullivan fez 47s05 na Olimpíada de Pequim, um tempo que corresponderia, sem traje, a 47s50, que ainda seria recorde mundial na época. Em 2009, Cesar Cielo fez 46s91 no Mundial de Roma, recorde vigente até hoje. Mas, como ele utilizava um traje mais avançado que o de Sullivan, na conversão seu tempo sem traje seria mais lento, de 47s78, ou seja, o tempo de Sullivan se manteria como recorde. E seria recorde até 2011, quando seu compatriota James Magnussen fez 47s49. O recorde teria sido superado algumas vezes, e hoje estaria em poder do americano Caeleb Dressel, com 46s96 do Mundial de 2019.


Cesar Cielo bateu seus recordes mundiais com um traje da Arena (foto: Martin Bureau/AFP)

200m livre masculino

Em 2008, Michael Phelps fez 1min42s96 na Olimpíada de Pequim, um tempo que corresponderia, sem traje, a 1min43s73, que ainda seria recorde mundial na época. Em 2009, o alemão Paul Biedermann fez 1min42s00 no Mundial de Roma, recorde vigente até hoje. A marca corresponderia a 1min43s41 na conversão sem traje, mais rápido que o tempo de Phelps e, logo, também seria recorde. Após a proibição dos trajes, a marca seria superada pelo francês Yannick Agnel na Olimpíada de 2012 com 1min43s14, marca que seria recorde mundial até hoje.


400m livre masculino

Em 2009, Paul Biedermann fez 3min40s07 e superou por apenas um centésimo o recorde do australiano Ian Thorpe de 2002. Sem traje, a conversão indicaria um tempo de 3min42s18, e o recorde de Thorpe estaria vigente até hoje - seria o recorde mundial mais antigo da natação.


200m costas masculino

Em 2008, o americano Ryan Lochte fez 1min53s08 na Olimpíada de Pequim, um tempo que corresponderia, sem traje, a 1min53s84, que ainda seria recorde mundial na época. Em 2009, seu compatriota Aaron Peirsol fez 1min51s92 no Mundial de Roma, recorde vigente até hoje. A marca corresponderia a 1min53s37 na conversão sem traje. Após a proibição dos trajes, a marca seria superada por Lochte no Mundial de 2011 com 1min52s96, marca que seria recorde mundial até hoje.


400m medley masculino

Essa é a única prova masculina em que a marca obtida naquela época com traje ainda seria recorde mundial hoje na conversão para a marca sem traje. Michael Phelps fez 4min03s84 na Olimpíada de Pequim, em 2008, tempo que corresponderia a 4min04s82. Ninguém mais conseguiu nadar abaixo de 4min05s, o que significa que Phelps ainda seria o recordista até hoje, mesmo se tivesse nadado sem traje tecnológico.


200m livre feminino

Em 2008, a italiana Federica Pellegrini fez 1min54s82 na Olimpíada de Pequim, um tempo que corresponderia, sem traje, a 1min55s67, marca que não seria recorde mundial - em 2007, a francesa Laure Manaudou havia nadado para 1min55s52 sem traje tecnológico. Em 2009, Pellegrini fez 1min52s98 no Mundial de Roma, recorde vigente até hoje. A marca corresponderia a 1min54s25 na conversão sem traje, e essa sim seria recorde. Após a proibição dos trajes, a marca seria superada pela americana Allison Schmitt na Olimpíada de 2020 com 1min53s61, marca que seria recorde mundial até hoje.

Federica Pellegrini bateu recordes mundiais utilizando um traje da marca italiana Jaked (foto: reprodução/seablog.it)

200m borboleta feminino

Essa é a única prova feminina em que a marca obtida naquela época com traje ainda seria recorde mundial hoje na conversão para a marca sem traje. A chinesa Liu Zige fez 2min01s81 nos Jogos Nacionais da China de 2009 - e, curiosamente, nadando com um traje Speedo LZR de 2008, em tese mais lento do que os trajes que apareceram em 2009. Na conversão, seu tempo corresponderia a 2min02s83, e na era pós-trajes ninguém nadou sequer abaixo de 2min04s, o que significa que Liu ainda seria a recordista até hoje, mesmo se tivesse nadado sem traje tecnológico.


Para finalizar, vejamos como seria a evolução de Cesar Cielo nos 50m livre de 2007 a 2014, considerando os tempos ajustados sem trajes de 2008 e 2009:


2007: 21s84

2008: 21s51 (21s30 com traje)

2009: 21s46 (20s91 com traje)

2010: 21s57

2011: 21s52

2012: 21s38

2013: 21s32

2014: 21s39


Observe como a evolução faz sentido, sem aquele salto desproporcional que os trajes proporcionaram em 2008 e 2009. Ainda assim, sua melhora de 2007 para 2008 teria sido notável, de mais de três décimos, evolução que justifica o título olímpico que conquistou naquele ano. Como já mencionado, seu 21s46 de 2009 teria sido recorde mundial, que seria perdido em 2011 mas recuperado em 2013 e mantido até 2015.



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