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  • Daniel Takata

Recordes mundiais de Cesar Cielo estão mais a perigo do que nunca


Cesar Cielo celebrou em 2009 o título e o recorde mundial dos 100m em Roma (foto: Martin Bureau/AFP)

Parece que foi ontem. Mas lá se vai uma década que o nadador Cesar Cielo estabeleceu o recorde mundial dos 100 m livre.


Na ocasião, o brasileiro venceu a prova no Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos de 2009, realizado em Roma, com o tempo de 46s91.


À época, Cielo estava na melhor fase de sua carreira.


No ano anterior, havia conquistado a medalha de ouro olímpica nos 50 m livre, a única até hoje conseguida por um nadador do país.


Usualmente, recordes mundiais são exceções. Afinal, não é todo dia que se vê o tempo mais rápido da história de uma determinada prova.


Pois, naquele ano de 2009, o que era exceção virou regra. E recordes mundiais na natação eram vistos quase todos os dias.


Tudo por causa dos trajes tecnológicos que tomaram conta do esporte no biênio 2008-2009.


Na época, os fabricantes esportivos passaram a utilizar materiais como neoprene e poliuretano na confecção dos trajes para competição. Tais materiais alteram artificialmente a flutuabilidade do corpo na água.


Além disso, os trajes diminuíam a resistência ao deslocamento e a compressão atrasava a fadiga durante as provas.


Resultado: mais de 100 recordes mundiais no período, sendo 43 apenas no Mundial de Roma.


A partir de janeiro de 2010, tais trajes foram proibidos pela FINA (Federação Internacional de Natação).


Antes, Cielo ainda teve tempo de estabelecer mais uma marca global.


Em dezembro de 2009, no Torneio Open realizado no Pinheiros, superou o recorde dos 50 m livre com 20s91, marca que também se mantém até hoje.


Ao longo dos anos, com a evolução do esporte, alguns recordes daquele período foram sendo superados.


Hoje, em piscina de 50 metros, restam 12 recordes daquela época, das 34 provas oficiais da natação.


É notável a diferença entre gêneros: dos 12, apenas dois são femininos, contra 10 em provas masculinas.


Dois desses são justamente os de Cesar Cielo.


No último Campeonato Mundial, realizado em Gwangju, na Coreia do Sul, o recorde dos 100 m livre foi seriamente ameaçado.


O americano Caeleb Dressel, com a marca de 46s96, tornou-se o primeiro homem a completar a distância abaixo de 47 segundos sem a ajuda dos trajes de uma década atrás.


Seu tempo ficou somente a cinco centésimos do recorde mundial.


A pergunta é inevitável: quão perto estamos de ver o nome do maior nadador brasileiro apagado da lista de recordes?


Leia o texto a seguir, e também assista ao vídeo no canal do Esportístico no YouTube sobre o tema.



Evolução gradativa sem os trajes


Obviamente que, com a ajuda dos trajes, não só os recordes mundiais de uma década atrás foram afetados, como também os desempenhos dos nadadores da elite internacional que tinham condições de utilizar o acessório.


Em 2009, a média dos tempos dos 100 atletas mais bem colocados no ranking mundial dos 100 m livre foi de 48s58, e o tempo do 100º colocado foi de 49s34.


Se não fossem os trajes, o esperado era que esses números apresentassem uma leve queda no ano seguinte. O que é a tendência pela evolução natural do esporte.


Mas não. Com o banimento dos trajes, em 2010 a média subiu mais de meio segundo, para 49s27 - o tempo do 100º colocado foi de 49s93.


Conforme os anos foram passando, esses números foram caindo gradativamente.



Foi somente em 2018 que o 100º colocado do ranking mundial conseguiu tempo inferior, 49s23, àquele 49s34 de 2009, em um ano não olímpico.


(em anos olímpicos, os tempos tendem a ser naturalmente mais rápidos.)


A média dos 100 primeiros colocados, no entanto, ainda não chegou a 48s58.


Em 2018, foi de 48s71. Em 2019, ainda com competições importantes a serem realizadas, está em 48s66.


A projeção, pela evolução da última década, é que essa média esteja, em 2020, em torno de 48s50 a 48s55.


Com isso, entre os 100 atletas mais rápidos, chegaremos ao patamar que a prova se encontrava em 2009.


E, cada vez que os tempos dos atletas melhoram como um todo, aumenta também a chance de o recorde mundial ser superado.


Considerando essa evolução, e também a marca de Dressel de 46s96, além da do australiano Kyle Chalmers, próximo com 47s08, qual seria a chance de o recorde de Cielo cair em 2020?


O americano Caeleb Dressel desponta como ameaça a marcas de Cielo (foto: reprodução:YourSwimLog.com)

Fazendo as contas


Para essa análise, pode-se utilizar Teoria de Valores Extremos, que é um ramo da estatística que trata de eventos extremos. Por exemplo, pode ser utilizada para calcular a probabilidade de ocorrência de uma chuva muito forte que resulte em alagamentos.


Na natação, recordes mundiais são valores extremos, no sentido de que representam o desempenho máximo no esporte. Para essa análise, não só os recordes são considerados, mas idealmente toda uma massa de dados. Nesse caso, os tempos dos 100 atletas mais bem colocados no ranking mundial.


Dada a evolução da prova nos últimos anos, a probabilidade de o recorde dos 100 m livre cair em 2020 é de 55%.


Ou seja, a probabilidade de o recorde ser superado é mais alta do que a de não ser.


Para se ter uma ideia, essa probabilidade era de somente 4% em 2012, ano da Olimpíada de Londres.


E menor ainda, 3%, em 2016, ano dos Jogos do Rio de Janeiro.


Dressel e Chalmers ficaram, respectivamente, a 5 e a 17 centésimos do recorde de Cielo neste ano nos 100 m livre.


Ah, e os 50m livre?


Bruno Fratus é um dos mais rápidos do mundo nos 50m livre. Será que pode alcançar Cielo? (foto: Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br)

Nos 50 m livre, metade da distância, se o panorama fosse semelhante, deveríamos ter um atleta distante somente 2-3 centésimos, e outro a 8-9 centésimos do recorde.


Dressel, o mais rápido do Mundial, venceu com 21s04. O segundo colocado no ranking mundial de 2019, o brasileiro Bruno Fratus, tem o tempo de 21s31. Estão distantes, respectivamente, 13 e 40 centésimos do recorde.


Logo, imaginamos que a probabilidade de o recorde dos 50 m livre cair seja menor em relação à probabilidade dos 100 m livre.


Utilizando a mesma metodologia, a probabilidade de que o recorde caia no ano que vem é de 15%.


Pode não parecer muito. Mas, em 2012, essa probabilidade era praticamente igual a zero. E, em 2016, era de apenas 0,09%.


O valor atual já é suficiente para que a quebra do recorde não seja tratada como uma surpresa.


Assim como não será surpresa se os três mais importantes recordes de Cesar Cielo – os dois mundiais citados e o recorde olímpico dos 50 m livre de 21s30 – não mais existam após os Jogos Olímpicos de Tóquio, no ano que vem.


Não se esqueça de também conferir o vídeo sobre o tema no canal do Esportístico no YouTube, logo abaixo.




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© 2019 por Daniel Takata.