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  • Daniel Takata

Sobre a pesquisa de torcidas do Datafolha

Na semana passada, foi divulgado o resultado da última pesquisa realizada pelo Datafolha de torcidas de times de futebol no Brasil.


O resultado não é surpreendente. O gráfico a seguir, retirado do site do Datafolha, indica quais são os times com maiores torcidas.

Os cinco primeiros, nessa ordem, são Flamengo (20%), Corinthians (14%), São Paulo (8%), Palmeiras (6%) e Vasco (4%). 22% declararam não torcer para nenhum time, e 2%, para a Seleção Brasileira. A pesquisa foi realizada no final de agosto com uma amostra de 2.878 pessoas.


O Datafolha vem realizando essa pesquisa de forma regular pelo menos desde 2000. Os cinco primeiros colocados se mantêm os mesmos desde então, com apenas ligeiras variações de percentuais.


Se retrocedermos mais no tempo, houve uma pesquisa em 1983, encomendada pela revista PLACAR ao Instituto Gallup. Foi a primeira grande pesquisa sobre o assunto. Na época, as maiores torcidas eram as seguintes: Flamengo (31%), Corinthians (17%), Palmeiras (9%), Vasco (9%), Santos (7%) e Atlético-MG (7%).


Já em 1993, a mesma PLACAR encomendou uma pesquisa ao Ibope, e os resultados se mostraram bem diferentes: Flamengo (16,5%), Corinthians (13,6%), São Paulo (7,2%), Vasco (6,2%), Fluminense (4,6%) e Palmeiras (4,3%).


É difícil fazer comparações entre as pesquisas, devido a diferenças de metodologias. Mas elas têm seu valor histórico e refletem a opinião dos torcedores em cada época.


E podemos nos perguntar: como uma pesquisa com menos de 3 mil respondentes podem refletir com precisão o cenário de milhões de torcedores?


Essa questão também aparece com frequência em épocas de pesquisas eleitorais.


Não se esqueça de conferir também o vídeo no canal do Esportístico no YouTube sobre o tema:




Felizmente, há resultados da teoria de probabilidades que indicam que, na maioria das vezes, um tamanho de amostra como o escolhido é suficiente.


Tudo por causa de um resultado chamado de Teorema Limite Central, ou Teorema Central do Limite.


As proporções observadas para cada time são quantidades variáveis. Por exemplo, considere o percentual observado para a torcida do Flamengo, de 20%. Se uma outra amostra de 2.878 pessoas fosse selecionada, pode ser que a proporção observada fosse 19%. Em outra, talvez de 22%. E assim por diante.


E o Teorema Limite Central garante que, para um tamanho de amostra razoavelmente grande - e 3 mil já é bastante grande -, a distribuição desses percentuais segue uma distribuição de probabilidade, chamada de Normal.


A fórmula que determina a distribuição Normal é um pouco complicada, e é aí que está a magia do resultado. Sempre esse comportamento será observado para amostras de tamanhos razoavelmente grandes.


E é assim que se calculam as conhecidas margens de erro. O Datafolha informa que a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais, para cima e para baixo. Isso quer dizer que a margem de erro para a proporção de torcedores do Flamengo na população é de 18% a 20%.


A margem de erro é o correspondente ao que chamamos de intervalo de confiança. Nesse caso, um intervalo de confiança de 95%. Isso quer dizer que, se 100 pesquisas fossem realizadas, com amostras aleatoriamente selecionadas - isso é importante -, e calculássemos os intervalos para cada pesquisa, esperaríamos que em cerca de 95 os intervalos cobrissem o valor verdadeiro da proporção na população.


Então, basicamente falando, há uma grande confiança de que a proporção verdadeira de torcedores do Flamengo no Brasil esteja entre 18% e 22%. O que, para uma amostra de menos de 3 mil pessoas em uma população de milhões de torcedores, é uma estimativa bem precisa. E garantida pelo Teorema Limite Central.


Por isso, apesar de a torcida do Cruzeiro ter aparecido com 4% na pesquisa e a do Atlético-MG com 2%, isso não necessariamente quer dizer que o primeiro time tem o dobro de torcedores do outro. Primeiro, porque os percentuais estão arredondados - o que quer dizer que 4% pode até corresponder a 3,6% e 2%, a 2,4%. E, segundo, por causa das margens de erro. O percentual da torcida do Cruzeiro estaria, com grande confiança, entre 2% e 6%, e do Atlético entre 0% e 4%. Pode até ser que a torcida do Atlético seja maior. E isso faz parte da incerteza da pesquisa.


Clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro no Mineirão (foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)

Na verdade, para ser mais preciso, a margem de erro é de 1,8 ponto percentual para cima e para baixo, pelo resultado do Teorema Limite Central.


Curiosidade: se desejássemos uma margem de erro de somente 1 ponto para cima e para baixo, precisaríamos de uma amostra entre 8 mil e 10 mil pessoas. O que talvez, por motivos logísticos, seja inviável, e talvez os gastos com uma pesquisa tão grande não compensem o ganho que se tenha nas estimativas.


Não se esqueça de conferir também o vídeo no canal do Esportístico no YouTube sobre o tema:





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© 2019 por Daniel Takata.